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Anitta e a joalheria Vivara

Anitta nas fotos da campanha de sua linha Bang para a Vivara Life

Sim, vou falar de Anitta e da joalheria brasileira Vivara. Cá estão meus dois tostões na última polêmica. Vamos lá porque o textão hoje é dos difíceis. Prepara.

Tenho por hábito não ler comentários em sites, principalmente os noticiosos sejam eles legítimos ou falsos. A maldade humana se revela ali de uma forma que não pode fazer bem para ninguém. Destilam-se preconceitos, recalques e ódios mesmo. Só que esta semana eu fui obrigada a mergulhar nesse mundo de trevas porque uma de suas ondas lambeu a reputação de uma joalheria brasileira e me pôs para pensar. Longe de ser uma das minhas preferidas em termos de produto, ela tem todo o meu respeito em seu posicionamento de marca e suas ações de marketing.

O lançamento da nova linha da Life by Vivara tumultuou a cabeça de uma parcela de suas clientes ou aspirantes a clientes no dia 16 de janeiro. A causa: a funkeira Anitta.

Não vou repetir o teor dos comentários, mas tenho certeza que dá para imaginar. Tem um certo parentesco com a discussão em São Paulo sobre se pixo e grafite são ou não são arte. Sim, tem gente ainda discutindo se funk é música e até se bling-bling é joalheria. Vamos só combinar que o mundo mudou muito. Se até as fronteiras entre os países estão menos claras porque tem tanta gente preocupada em rotular tudo? Sei que arrumar a vida em caixinhas etiquetadas ajuda a viver e entender a vida, mas está ficando cada vez mais difícil e quem se esforça muito sofre demais. Vejam o Trump querendo colocar um muro para ver se consegue entender os latinos. Vejam os ingleses votando no Brexit sem nem saber para quê.

Voltemos ao nosso universo. Pessoas indignadas com a associação da funkeira com uma joalheria são mais um exemplo de que tem muita gente querendo arrumar o mundo numas caixinhas em que ele não cabe mais. O mundo é global mesmo e agora muito mais gente pode se expressar, porque a cultura não existe mais apenas nos templos sagrados, onde às vezes se leva 50, 100 anos para penetrar. Fico imaginando o que Chiquinha Gonzaga pensaria de Anitta.

Anitta tem recordes de vendas de cds e dvds num mundo que já nem consome muito disso. (Antes que digam que apenas não se consome em ambientes altamente conectados, já aviso que é por isso mesmo. Ela penetra em espaços muito mais amplos que essa vida arrumada daqui.) Tem mais seguidores no Insta que muitos artistas internacionais. 17,4 milhões para ser precisa, bem menos do que Beyoncé com seus 92,1 milhões, mas já é muuuita coisa. Esteve entre os dez mais no Spotify no fim do ano passado e nos 100 mais no iTunes também em dezembro de 2016. São números globais, porque ela estuda dedicadamente inglês e espanhol e já começou a gravar nesses idiomas. Está na mesma em termos musicais e de empoderamento feminino que gente como a Queen B, Beyoncé para os desavisados. Você que fica assistindo Lemonade e tecendo altas considerações filosóficas, aqui também tem mulheres pensantes, só que num idioma que você domina e sobre umas questões que são próximas demais para não doer.

Outra foto da campanha que tem cores e sabores de alto verão

De olho nesses números e percebendo o quanto Anitta e seus fãs gostam de joias, a Vivara lançou 12 produtos entre pingentes e anéis com preços entre 100 e 250 reais inspirados no clipe da música BANG. Não estamos falando de nada diferente do que sejam os pingentes de marcas que mantém coleções similares. Aliás, todo mundo foi atrás do fenômeno Pandora porque sim: o colecionismo move o consumo e o sentido de identidade também.

Nós nos adornamos desde sempre. Quem já assistiu uma de minhas palestras sobre história da joalheria já viu até onde eu me jogo na linha do tempo. Claro que o mercado tem segmentos. Ninguém consegue produzir tudo para todo mundo o tempo todo. É que nem mentir… É dificílimo fazer o que a Tiffany & Co. faz: ter uma linha de entrada começando em 150 dólares e lançar coleções Blue Book de alta joalheria todos os anos. Tão difícil que a joalheria americana deu uma balançada séria nos últimos anos e fez um movimento radical.  Acaba de substituiu a super designer de joias e diretora criativa Francesca Amfitheatrof pelo estilista Reed Krakoff que assume como Chief Artistic Officer, com poderes que ninguém teve até hoje na empresa e com a missão de reinventar a conexão com o público.

O divertido nesse caso é que aqueles que estavam se queixando tão ferozmente sobre o lançamento da coleção nem se dão conta de que eles próprios estão apenas arranhando o universo da joalheria. Ou alguém já viu a marca se propor a participar com uma linha de alta joalheria de uma Biennale des Antiquaires? Vocês também podem dizer que uma enorme parte do ódio destilado tem a ver com questões morais, mas aí quem não dá conta de entender sou eu. Este é um post que eu jamais vou escrever porque me faz lembrar o único comentário pesado que recebi nesses anos todos e era de uma pessoa falando de texto sagrado, vaidade e luxúria. Isto é polêmica demais para uma amante e estudiosa das joias. Deixo o grande embate para os especialistas. Se a chave do sucesso hoje é a conexão com o consumidor, como li na Forbes outro dia, haverá uma hora em que as marcas terão que medir seriamente o que vale mais a pena. Por enquanto, imagino que a Vivara esteja mais feliz com a mídia espontânea do que preocupada com uma possível perda de clientes.

Aliás, parabéns! A resposta da Vivara foi exemplar. Olha só:

“A Life by Vivara é uma marca de joias colecionáveis
que busca sempre trazer novidades aos clientes, promovendo parcerias frequentes
como Disney,
 Star Wars e agora a coleção cápsula assinada por Anitta.
Já tivemos mulheres como Bruna Marquezine, Sabrina Sato,
Isis Valverde, Camila Queiroz e atualmente a Alinne Moraes.
Somos uma marca democrática,
que acredita que todas as mulheres são especiais
e, acima de tudo, merecem nosso respeito.”

Não, péra. Já tem polêmica nova! A reestreia de Amor & Sexo na Globo deixou um monte de gente com o cabelo em pé. Acho que terei que assistir. Bora causar uns tombamentos por aí.

Um pedacinho da letra de Tombei, de Karol Conka

Por último, um recado das pessoas que mais admiro na blogosfera, as meninas da Oficina de Estilo, com a caligrafia dos deuses do Fabio Maca.

Recado da Oficina de Estilo na mais pura linha gentileza gera gentileza

 

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4 Comments

  • Reply Paula 7 de fevereiro de 2017 at 16:40

    Ola!
    Adorei seu blog e seu texto . Eu confesso que não sou fã da Anitta mas a admiro, pelo fato de se dedicar aos estudos para aprimorar-se e também ser um sucesso entre crianças e adolescentes. O que me deixa chateada, é que as pessoas não medem palavras para criticar umas as outras, principalmente nessa esfera da internet.
    um abraço! 🙂

    • Reply Ana 11 de fevereiro de 2017 at 22:37

      Paula, concordo com você. Por aqui, vou fazendo a minha parte, slowblogging e com muito amor. Beijos, Ana

  • Reply Rodrigo Balestra 12 de março de 2017 at 19:29

    Fantástico texto!! Parabéns pela lucidez e coragem de falar o que tanta gente insiste em não querer ouvir e, sobretudo, compreender: o mundo mudou!! E pra melhor!

    • Reply Ana 15 de março de 2017 at 21:48

      Rodrigo, muito obrigada! Na maior parte do tempo, fico aqui escrevendo achando que é um monólogo e, de repente, um leitor e um elogio! Beijos, Ana

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