tudo sobre joias

Fotografia de joias

Fotografia de joias é o assunto de hoje. Ao longo dos anos, de tanto fotografar minhas joias e de mexer com imagens de joias, construí um olhar bem particular sobre o assunto. Já colecionei catálogos, revistas, links de sites. Hoje fico com meus livros, alguns sites e horas semanais bisbilhotando Instagram e Pinterest. O texto abaixo não tem muito nexo, mas oferece muitas pistas para quem quer se aventurar na realização das próprias fotos. Ele também atualiza um post escrito em 2012!

Um belo dia, meu namorado achou particularmente bonita uma peça que eu havia terminado e disse que ia fazer uma foto caprichada. Meses depois, José, que é fotógrafo desde que se entende por gente e começou a experimentar com a Rolleiflex do pai, sabia tudo de iluminação, posicionamento de peças e tratamento de imagens de joias. Aposentei minha Nikon no dia que postei uma foto linda e perguntaram se era dele. Eu já não era mais a fotógrafa das joias. Agora eu sou a mulher do fotógrafo, mas continuo acompanhando bem de perto seu trabalho. No meu ateliê, foto agora só um super still feito por José ou as minhas life style photos (fotos de estilo de vida) – como o pessoal começa a chamar as fotos de joias com fundos casuais nos Estados Unidos – feitas com o celular mesmo.

Vamos lá!

Peça linda da Bulgari, fotos profissionais e duas histórias diferentes determinadas pela iluminação. Saboreiem e escolham sua preferida ou imaginem em que situação usariam cada uma delas.

Que o mundo muda e cada vez mais rápido, todo mundo já entendeu, não é mesmo? Nosso olhar, condicionado por tantos elementos diferentes, muda junto. Para vocês terem uma ideia do quanto essa mudança não é nada sutil, imaginem que meu primeiro site, lá nas profundas do tempo, em 2005, tinha imagens enormes que hoje apareceriam na tela como umas thumbs (miniaturas) muito embaçadas, pixelizadas, bem pequenininhas e, acima de tudo, datadas.

Ainda reinava o formato horizontal que vinha das nossas fotos de álbuns desde meados do século passado, depois da popularização da fotografia. A maioria das pessoas que fotografavam o fazia com negativos 35 mm, raramente com cromos e seguramente só os profissionais trabalhavam com 120 mm ou grandes formatos. Assim, nosso mundo era ampliado em 10 x 15 ou 13 x 18. O fundo branco era uma obrigação, mas rolaram uns fundos bizarramente psicodélicos nos anos 1970. Tenho até uns catálogos da Tiffany & Co. para provar.

O catálogo da Tiffany & Co. de 1972-3 tem fundos assombrosos. Estas páginas são das mais bonitinhas.

Muito material impresso também tinha que ser produzido, para convencer o pessoal a dar uma olhada no site. A navegação era um horror: a maioria das pessoas precisava daquilo que chamávamos de breadcrumbs (migalhas de pão), para não se perder. Os menus eram enormes, poluindo demais a tela, porque estávamos todos engatinhando na internet. Aliás, a própria internet ainda era um bebezinho manhoso, mas isso já é um outro post.

O mundo hoje já é praticamente 10 x 10. A estética do Instagram redesenha a maneira como olhamos o mundo. Proporção áurea ainda ajuda, porém o quadradinho pede um novo olhar. O fundo branco continua muito útil, até mesmo necessário, para divulgação. A imagem realizada desta forma facilita muito a vida de quem quer ver seu trabalho numa revista ou num site, mas ele está deixando de ser o padrão para alegria de quem não é fotógrafo profissional ou não tem condições de arcar com essa despesa.

Calma! Não se impressione com as fotos que vê na internet, metade delas é renderização a partir de prototipagem em 3D. Há joalherias hoje que nem se dão ao trabalho de realizar as peças. Deixam para finalizá-las depois da venda concluída. Não aprovo isso simplesmente porque a joia pronta nunca será igual ao protótipo. É quase propaganda enganosa, rs.

No mais, se você vai encarar a missão de fotografar joias, esteja atendo à luz, foco, profundidade de campo (num grau mais avançado), composição e fundo. Entretanto, isso é só o começo.

O problema é que uma imagem para ter o fundo perfeitamente branco sem a joia ficar lavada, desbotada, exige que a foto seja feita em RAW e passe pelo menos pelo programa da máquina (que você precisa instalar no seu computador), pelo Lightroom e pelo Photoshop, onde deve ser recortada para aplicação posterior do fundo branco. Esta é a única forma de chegar ao super fundo branco e isso deve ser feito por profissional, para não parecer que a joia foi arrancada de um lugar para outro. Não é nada fácil e exige muita experiência para a foto não ficar artificial. Confesso que é quase um hobby meu procurar defeitos nas fotos nas revistas de moda.

Então, a foto surge no computador? Não, de jeito nenhum. Do mesmo jeito que não brota da máquina, não importa quão cara ela seja. Vem à minha mente uma série de citações, mas escolho duas que resumem tudo: Henri Cartier Bresson dizia, de diferentes modos, que fotografar era alinhar olho, coração e cabeça. Ele estava falando que uma fotografia é feita de um olhar atento, sentimentos e ideias. Apenas. Já Diane Vreeland, a mãe de todas as editoras de moda, dizia que o olho tem que viajar. Aliás, este é o nome do documentário sobre sua carreira e de um livro muito interessante: The eye has to travel. Mais uma vez estamos combinando corpo, mente e alma, deixando a curiosidade e a criatividade ampliarem nosso repertório, para construir alguma coisa que preste.

Sério que é necessário tudo isso para fazer a foto de um produto? Sinceramente, não. Para boa parte das fotos still, basta você ser um bom fotógrafo, bem técnico: luz, distância focal, enquadramento, um tanto de senso estético e criatividade e voilà! No entanto, para a joia é preciso ter tanta paciência que eu diria que é coisa para guerreiros ninjas ou, no outro extremo, monges budistas. Já experimentou fazer a foto de um objeto que reflete em todas as direções, que tem cores impossíveis de reproduzir no tal do computador e que mal para em pé?

Voltando às dicas… Claro que a qualidade e posicionamento da iluminação contribuem para um resultado mais natural e melhor. Pense com carinho em trabalhar com luz natural, que não incida diretamente sobre a joia, e completá-la com o auxílio dos materiais que você já tem. A ideia é simples: uma janela e uma superfície clara para ser usada como rebatedor. Também é preciso ter agilidade ao trabalhar com a luz natural porque o sol vai mudando de posição rapidamente.

Usando refletores, é preciso ter paciência para iluminar porque você precisa reposicionar tudo a cada peça. Essa ideia de um jogo de luz montado para todas as peças não é uma boa solução. Use um tripé ou apoie a máquina em alguma coisa, experimente muito com as luzes até achar que a peça rendeu o melhor dela e só então clique. Há quem faça 20-30 cliques mudando a iluminação, para depois escolher a melhor imagem. Há quem leve 20-30 minutos mudando a posição da peça, até achar a posição ideal.

Por conta de tantos artifícios usados, a foto com fundo levemente acinzentado está ganhando força no mercado, depois de anos de fundo preto, fundo branco e fundo acrílico com reflexo. Outra opção que me agrada muito é o pequeno cenário feito com coisas do cotidiano ou com objetos garimpados. Eles dão a dimensão da peça, ajudam a criar um clima, até uma identidade de marca, e a contar uma história.

Só para ficar na mesma referência, os catálogos mais recentes da Tiffany & Co. são um bom exemplo de que nem a turma da alta joalheria está seguindo regras rígidas. Há novas tendências em fotografia de joias, que surgem para acelerar a chegada da informação ao mercado e diminuir os custos de produção. Sim, eu vejo história até nas fotografias de joias!

O Blue Book da Tiffany & Co. de 2015 aponta novos e mais ousados caminhos. Percebam a luz mais dura e as lindas cores criadas pela refração da gema.

Vale a pena investir em ter a melhor foto possível (para comércio é preciso especialmente ter foco na peça toda), mas não se preocupe tanto com um fundo branco. Profissionais são indispensáveis para criar a imagem perfeita de divulgação, mas se sua comunicação está concentrada nas redes sociais, coloque seu ninja ou budista interior para fora e mãos à obra.

Quer conhecer o trabalho de Almir Pastore, o papa da fotografia de joias no Brasil? É por aqui.

José, citado lá no início, tem um belo portfólio. Ele é joalheiro também e sabe achar o ângulo certo para cada peça. O link é este.

Para completar, mais cinco joalheiras que tem Instagrams que são refresco para os olhos no meio de tanta poluição visual e produzem lindas fotos de life style. Estrangeiras, é claro, porque eu não quero me queimar com meus colegas brasileiros: a canadense Leah Alexandra, a portuguesa Inês Costa e as norte-americanas Monique Péan, Temple Saint Clair e  a marca Lily Emme, de Valerie Madison-Nethery.

Uma linda fotografia de joia de el namoradón que ficou apaixonado por esses brincos Bulgari vintage de uma cliente minha. Genial!

Bônus track: um artigo meu publicado na F Magazine de out/dez 2016:

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